domingo, 17 de abril de 2011

A bela morte

Estava voltando para casa depois de mais uma vez ter feito hora extra no escritório. Por ironia do destino, ou não, era uma noite de sexta-feira 13, chovia muito e para piorar tudo, o meu carro havia enguiçado na esquina do cemitério a duas quadras da minha casa.
Trágico, era o cemitério onde ela está enterrada. Havia dois anos que eu não a visitava, nem que passara por aquele caminho. Mas não sei o porquê, mas decidi passar por ali aquela noite.
O caminho em frente ao cemitério parecia mais longo do que eu me lembrava, meus passos eram curtos. A rua estava deserta, afinal, já era meia-noite. A luminosidade era pouca, só havia um poste de luz funcionando e, de vez em quando, falhava. Enquanto andava, a única coisa que vinha em miha cabeça era o nome dela, eu ainda podia sentir o doce cheiro do seu perfume.
Em minha cabeça se passava um filme de todos os nossos momentos juntos. Será que ela sente minha falta? Pensei comigo mesmo, mas rapidamente desconsiderei essa ideia, afinal, ela estava morta. Lembrei-me do dia em que ela morreu, tudo tinha sido muito rápido, a discussão, a arma, o tiro. Foi uma morte desnecessária, felizmente haviam testemunhas, mas sinceramente, me sinto culpado.
No início, a minha mulher suspeitou do meu envolvimento com a morte de outra mulher, mas depois consegui contornar a situação, caso contrário, acabaria morto se minha esposa descobrisse a traição.
Precisava visitá-la, já estava ali, não havia outro momento, afinal, estava sempre sem tempo, então entrei no cemitério, logo, pensei em voltar, mas havia alguma coisa que estava me puxando com uma força surpreendente, era como um ímã que me atraia. A chuva ia ficando cada vez mais forte à medida em que eu me aproximava de seu túmulo.
Em cima do túmulo dela havia uma rosa vermelha, estava nova, parecia que alguém havia visitado-a recentemente. Junto à rosa havia um bilhete que dizia: "terá vingança". No momento em que li senti calafrios, era como se ela estivesse escrito aquilo para mim. Podia sentir a sua presença. O seu cheiro que eu já sentia antes, agora parecia mais forte. Comecei a repetir em minha cabeça: "ela está morta, ela está morta". Me virei e atrás de mim havia um túmulo com meu nome, ao lado dele havia uma luz que, aos poucos, ia criando a forma do corpo dela, mas não podia ver direito, a chuva já estava embaçando a minha visão.
A luz se aproximava cada vez mais, eu não conseguia gritar, algo me tapava a respiração, em minha cabeça ecoava o som de sua voz dizendo: "vingança, vingaça, vingança". Ouvia sons de tiros, mas não conseguia ver nada nem ninguém por perto, a não ser aquela luz maravilhosa com um enorme sorriso no rosto me convidando para a morte.
Recusei o convite como quem recusa um chá na casa de alguém que pouco conhece, por vergonha ou por educação. Mas não fiz "charminho" por muito tempo e aceitei o convite e recebi aquela morte de vingança de braços abertos, já que assim conseguiria o seu perdão e viveriamos a eternidade juntos.

Um comentário:

  1. Seu texto ficou bem criativo. Gostei da criatividade. Invista nisso menina

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